Representação de Pessoas Trans na Mídia

Com o fenômeno da globalização, cada dia mais a mídia vem assumindo uma posição de destaque na sociedade. Funcionando como mediadora do conhecimento e influenciadora-mãe, o papel midiático hoje em dia é considerado essencial na formação de opinião, no lançamento de tendências e até mesmo como fonte de informação. Os diversos meios de comunicação atingem a mais diversa gama de pessoas, sendo quase impossível, no cenário capitalista, encontrar quem não seja minimamente motivado pela posição que a mídia assume na contemporaneidade.

Nesse sentido, é importante destacar que a mídia, como principal veículo de informação, também assume o papel de representar diferentes pessoas, vivências e realidades sociais, ainda que com fins lucrativos. Todavia, mergulhada no conservadorismo, tal representação acaba limitando-se a um padrão cisgênero, heterossexual, branco, allosexual e perisexo. Apesar de estar crescendo de forma gradual, ainda são poucas as boas representações retratadas na mídia que fujam desse padrão.

Sendo assim, falar da representação trans na mídia é falar de inclusão, de respeito e, acima de tudo, de igualdade. Essa representação, contudo, deve ser feita de maneira responsável, atentando-se para não acabar sendo uma abordagem caricata, estereotipada e intrinsecamente violenta. 

Até termos algo próximo de uma representatividade realmente boa de pessoas trans na mídia, um longo caminho foi trilhado, com mais erros que acertos. No cenário internacional, as primeiras imagens em movimento eram de crossdressers, normalmente em cenas em que homens cis fantasiavam-se de mulheres e tal situação era utilizada como alivio cômico. O objetivo de tais cenas era ridicularizar a feminilidade, levando em consideração que a prática de crossdresser sequer era permitida na época.

A utilização de crossdresser, e a tentativa de usá-lo como uma forma de caracterização estereotipada de pessoas trans foi uma constante na história do cinema e da mídia em geral. Mesmo em seriados mais recentes, feitos no início do século XXI, ainda percebe-se uma quantidade considerável de representatividade trans, porém essa sendo feita com o intuito de tratar pessoas trans como uma piada.

Essa iniciativa acaba influenciando diretamente na vivência de pessoas transgênero, fazendo com que as demais pessoas adotem um comportamento e uma visão de mundo embasados na transfobia. Representar transgêneros como piada ou alívio cômico é fazer com que essa comunidade seja vista dessa maneira por toda a sociedade. E muitos não entendem o verdadeiro peso disso.

No Brasil, Roberta Close foi um dos nomes mais importantes quando falamos do destaque midiático para pessoas trans. Descoberta em meados dos anos 80, Roberta ganhou destaque após ter sido a primeira mulher trans a ser capa da revista Playboy. Antes dela, pessoas trans apareceram de forma pontual na TV brasileira, sendo inclusive caracterizadas de forma satirizada ou vulgarizada. Com Roberta, a pauta trans ganhou destaque em um Brasil dominado pelo conservadorismo. Ela despertou uma curiosidade no público, sendo, porém, constantemente fetichizada e tratada como um “mistério”. A identidade de gênero de Roberta era negada e colocada à prova com frequência.

Com isso, a pauta trans começou a entrar em alta e ser debatida em diversos meios de comunicação. No início dos anos 2000, entretanto, acharam na figura da pessoa transfeminina as condições perfeitas para serem alvo dos mais diversos tipos de piadas e chacotas. Sendo protagonistas em diversos quadros ofensivos de programas como Pânico, transgêneros eram pessoas constantemente sub-humanizadas, possuindo sua dignidade negada.

Tal situação acabava refletindo diretamente na vivência de pessoas trans, as quais sofriam os mais diversos tipos de violência. A influência de uma representação podre colocava esse grupo na margem da sociedade, sendo importante pontuar que as mulheres trans normalmente eram vistas sob a ótica da prostituição e da hipersexualização, enquanto a existência de homens trans era-lhes negada, invisibilizando e invalidando sua existência, lendo-os simplesmente como mulheres lésbicas.

No início da década de 10 do presente século, a representação nas grandes mídias começou a ser feita de forma mais responsável, porém ainda envolvendo grandes problemáticas. É importante ressaltar que produções independentes possuem alta qualidade no que se refere a representatividade, existindo ótimos exemplos internet afora. Entretanto, quando falamos nos canais que ganham mais destaque e influenciam diretamente a sociedade como um todo, estamos falando de filmes como “Tomboy” (2011) e “A Garota Dinamarquesa” (2015), que são dois exemplos de obras que buscam trazer uma visão mais humanizada acerca da transgeneridade, após tantos anos de violência midiática, mas acabam falhando.

Apesar da tentativa de desvincular as pessoas trans dos papéis caricatos dos anos anteriores, ambos os filmes pecam ao trazerem atores cis para interpretar personagens transgêneros.  O fato de fazerem filmes sobre histórias de pessoas trans reais e não chamarem atores trans para interpretá-los apenas mostra o quanto a inclusão que estão tentando vender é uma fachada. Pessoas que vivem as situações retratadas em tais filmes continuam sendo marginalizadas por todo o meio social, não possuindo sequer o direito de representarem a si próprias em um meio que as oprimia por décadas.

Exemplo semelhante foi o que aconteceu na televisão brasileira, na novela “A Força do Querer” (2017), em que o personagem Ivan, um homem trans, além de ser interpretado por uma atriz cisgênero, ainda possui uma representação completamente estereotipada no que pessoas cis veem sobre a transgeneridade. Atribuir a experiência de ser trans a simplesmente “nascer no corpo errado” apaga toda a luta pela aceitação, em que seu corpo não necessariamente precisa refletir o seu gênero. 

Assim, essas representações, no mínimo questionáveis, reforçam estereótipos e instigam a existência trans a ser vista sobre uma ótica binarista.

Mas, para não dizer que não falei das flores, existem muitas obras na mídia televisiva que retratam pessoas trans de maneira fidedigna. “Orange Is The New Black” (2013), por exemplo, foi uma série fundamental para que a pauta trans fosse abordada de forma correta pelos meios de comunicação. Com papel de destaque, a personagem de Laverne Cox foi inspiração para que transgêneros finalmente pudessem ver a si mesmes no meio midiático, em uma representação que não seja caricata ou encenada por pessoas cis. Desse modo, séries e filmes como “Pose” (2018), “Paris is Burning” (1990) e “Revelação” (2020) são apenas alguns exemplos de ótimas representações de pessoas trans, sendo o último um documentário acerca de toda a pauta levantada no presente texto.

Pode-se perceber, portanto, que a representatividade importa, influenciando ela diretamente em vários aspectos daqueles que foram representados. Pessoas trans na mídia devem ser retratadas de modo digno, com uma representatividade real, a qual não as resuma a estereótipos, mas que as insira nos mais diversos contextos sociais e midiáticos de forma a proporcionar uma verdadeira inclusão.

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