Neolinguagem

O que é?

Quando se fala de neolinguagem, é importante frisar que a construção da língua portuguesa tem uma estrutura binária, separando tudo entre feminino e masculino, e esta linguagem vem para mudar isto.
Essa construção se dá devido à adaptação do que veio a ser a nossa língua, visto que o latim, língua originária, possuía uma estrutura que incluía opções neutras a serem utilizadas em certas ocasiões.
O fato de a língua portuguesa ter acabado com a sua neutralidade e nunca ter cogitado trazê-la de volta reflete tanto a cisnormatividade binária da nossa língua quanto o machismo, que utiliza do masculino para neutralizar os gêneros.

Sendo assim, a neolinguagem é uma proposta de reforma na língua, na qual não será excluído nada, porém acrescentado uma forma neutra e acessível para que a nossa língua venha a se tornar cada vez mais inclusiva.


Quando utilizar?

Com pessoas que lhe pedirem

Na utilização dos pronomes, sejam quais forem, deve-se ser observado o conforto do sujeito. Sendo assim, se uma pessoa, seja cis ou trans, quiser utilizar algum pronome que fuja dos conhecidos “feminino” e “masculino”, não há problema algum nisso, e é importante respeitar essa decisão.

Quando se dirigindo a mais de uma pessoa

A pauta da neolinguagem vem sendo trazida não apenas como uma linguagem inclusiva, porém também neutra. Sendo assim, ela deve ser utilizada com duas ou mais pessoas, caso estas utilizem pronomes distintos.

Com alguém que você não saiba os pronomes

Quando o sujeito é alguém que você não conhece, no entanto, é improvável que você esteja ciente de como esta pessoa quer ser tratada. Neste caso, o neutro também é o mais adequado.

Vale lembrar que o ideal é não presumir o gênero ou os pronomes de alguém com base em aparências, mas sim perguntar antes o modo no qual a pessoa prefere ser tratada e, acima de tudo, respeitar sempre seus pronomes.


Contra-argumentação

“Pessoas com deficiência ou neurodivergentes não conseguiriam aprender a neolinguagem”

Quando visto além de uma perspectiva capacitista, o argumento não faz sentido. A deficiência ou neuroatipicidade de alguém não faz dessa pessoa incapaz de compreender ou até mesmo utilizar a neolinguagem.

“Pessoas pobres e marginalizadas não têm acesso, ou possuem outras preocupações além disso”

Quando falamos sobre desigualdade social, é importante saber direcionar a culpa. Educação precária, desigualdade econômica e outros problemas do tipo são frutos de um longo histórico de opressão, especialmente a pessoas negras ou racializadas de modo geral. São problemas sociais, que devem ser cobrados ao governo.

“Tem coisas mais importantes pelo o qual lutar”

Infelizmente, em nossa atual sociedade, os problemas e opressões são incontáveis. No entanto, são também inigualáveis, e não seria correto colocá-los em uma balança. Toda violência deve ser combatida, e uma pauta não anula a outra.

“O masculino já é neutro, não tente mudar a língua”

O português, enquanto uma língua viva, está sempre em transformação, com mudanças lentas e de acordo com a necessidade e o uso popular.


X e @

No início da luta pelo uso da neutralidade na língua portuguesa, o X era pautado e até foi utilizado por certo período de tempo aqui no Brasil.

• Artigo: x
• Pronome: elx/delx
• Desinência: x

• Elx é bonitx.
• Este lápis é delx.
• Elx é x mais espertx.

• Artigo: @
• Pronome: el@/del@
• Desinência: @

• El@ é bonit@.
• Este lápis é del@.
• El@ é @ mais espert@.

Hoje, no entanto, entende-se que o uso do X, tal qual o uso do @, é inviável.

Além de ser impronunciável no dia a dia, é inacessível também na mídia, visto que pode confundir, por exemplo, leitores de tela de pessoas com deficiência visual, além de em alguns casos afetar também pessoas disléxicas. É ilegível e acaba por fazer com que a pessoa perca a informação.


Utilizando

Em termos de neutralidade, no português o ideal é utilizar a linguagem do e/u.

• Artigo: e
• Pronome: elu/delu
• Desinência: e

• Elu é bonite.
• Este lápis é delu.
• Elu é ê mais esperte.

No entanto, existem outros tipos de neolinguagem. Estas devem ser utilizadas em ocasiões específicas, ou seja, quando alguém as solicitar.

• Artigo: e
• Pronome: ile/dile
• Desinência: e

• Ile é bonite.
• Este lápis é dile.
• Ile é ê mais esperte.

Além disso, também é possível neutralizar a frase.

• Esta pessoa é bonita.


Utilizando: Pronomes

Pronome é a classe de palavras que substitui o substantivo. Ele indica a pessoa do discurso e situa o tempo e espaço.

• Ele e ela → elu/éli/ile/el/ila/ilo
• Dele e dela → delu/déli/dile/del
• Meu e minha → mi/minhe
• Seu e sua → su/sue
• Teu e tua → tu/tue
• Nele e nela → nelu/néli/nile/nel
• Nosso e nossa → nosse
• Aquele e aquela → aquelu/aquéli/aquile

Enquanto linguagem neutra, o ideal é utilizar elu e seus derivados.


Utilizando: APF

O modelo APF consiste em um conjunto para informar a sua linguagem pessoal, isto é, o modo pelo qual as pessoas devem lhe tratar.

A → artigo

P → pronome

F → final de palavra/flexão de gênero (desinência)

Exemplificando:

• Artigo: a
• Pronome: ile/dile
• Desinência: o

• Ile é bonito.
• Este lápis é dile.
• Ile é a mais esperto.

O seu conjunto pessoal pode variar de acordo com o modo que lhe deixa mais confortável.


Utilizando: Plural

Para o plural, usualmente basta adicionar s no final da palavra.

• Amigos, amigas, amigues
• Bonitos, bonitas, bonites
• Famosos, famosas, famoses

Algumas palavras no plural já terminam em es, mesmo no masculino. Nestes casos, o plural fica em ies.

• Professores, professoras, professories
• Deuses, deusas, deusies
• Cantores, cantoras, cantories

Obs: Algumas pessoas optam por manter o -es, ou por utilizar o -ie no singular também.


Utilizando: Regrinhas Especiais

Em alguns casos, a adição do e no final da palavra não é o suficiente. Por isso, algumas regrinhas devem ser levadas em consideração

Palavras terminadas em ca/co adquirem qu

• Fraco → Fraque
• Médica → Médique
• Músico → Músique

Palavras terminadas em ga/go adquirem gu

• Amigo → Amigue

Palavras terminadas em ça/ço adquirem ce

• Moça → Moce

Palavras terminadas em ão e ã viram ane

• Cristão → Cristane
• Irmão → Irmane

Em palavras terminadas em triz não se adiciona o e no triz

• Atriz/ator → Atore

Obs. Em nossa língua, algumas palavras terminadas em triz não são realmente a versão feminina dela. Um exemplo é a palavra embaixatriz.

Em tese, a sua versão masculina seria embaixador. No entanto, a terminação em triz não indica mulher com o mesmo cargo que o embaixador, e sim mulher do embaixador. Neste exemplo, o cargo correto seria embaixadora.

Outros:

• Gêmea/gêmeo → Gemini/gemiê

Em alguns casos, a palavra para o feminino e a palavra para o masculino são diferentes demais para que seja adicionado o e. Nestes, é preciso uma nova palavra.

• Mãe/pai → Nan
• Mamãe/papai → Nanan
• Materna/paterno → Naterne
• Maternal/paternal → Naternal
• Madrinha/padrinho → Nadrinhe
• Madrasta/padrasto → Nadraste

Como a neolinguagem ainda está sendo implementada, é possível existir mais de uma sugestão de palavra para os mesmos termos.

• Pãe; Zazá; Fao; Progenitore/Responsável


Utilizando: outros

O termo “não-binário”, utilizado como guarda-chuva para definir identidades que se encontram além dos gêneros socialmente impostos, traz muitas confusões. Afinal, não-binário é um termo neutro ou não?

Sim e não.

• Sam Smith é não-binário.

Na frase acima, é possível presumir que o termo vem acompanhado da palavra “gênero”, assim concordando com ela e tendo sua finalização em -o.

• Sam Smith é (do gênero) não-binário.
• Sam Smith é não-binárie.

Na frase acima, o termo, como predicativo do sujeito, concorda com ele. No caso, sendo Sam Smith uma pessoa que utiliza pronomes neutros, o termo flexiona de acordo com esses pronomes, ou seja, no neutro.

• Elu é não-binárie.
• Ela é não-binária.
• Ele é não-binário.

Manter o termo no masculino, concordando com a palavra gênero, não é errado; mas flexioná-lo pode evitar desconfortos desnecessários.


Xenopronomes

Gêneros xênicos são identidades que buscam uma maneira de categorização de gênero específica. Eles fogem dos conceitos estabelecidos nas identidades de gênero binárias já existentes, assim como suas variações, oposição, negação ou misturas. Portanto, os gêneros xênicos podem ser baseados em metáforas ou fortes conexões com algo, sendo ambos utilizados para descrever uma experiência existente.

Dentro da vivência dos xenogêneros, pode ocorrer o uso dos xenopronomes, visto que mesmo em sua forma neutra os pronomes na linguagem ainda não conseguiram englobar a multiplicidade de vivências do não-binarismo.

Desse modo, o conceito de xenopronomes surgiu, sendo eles um tipo neopronomes que tem como objetivo englobar a vivência de pessoas xenogêneros ou de qualquer pessoa que sinta-se confortável usando-os.

A utilização desses pronomes pode parecer complexa logo de cara, mas com o tempo e com muito treino vai ficando mais simples.

Tomemos o exemplo de uma pessoa gênero-gato que utiliza os pronomes meow/meows. Em inglês, para se referir a essa pessoa, é só substituir o local onde se colocaria o nome pelo neopronome em questão.

Na prática, a frase “Júpiter is in the room, they are very tired” ficaria do seguinte modo: “Júpiter is in the room, meow is very tired.’’

Já no português, devemos sempre perguntar o APF da pessoa antes de nos referirmos a ela. Desse modo, poderemos falar de maneira correta as frases e palavras que flexionam gênero, respeitando a existência do outro.

Utilizando o mesmo exemplo de uma pessoa gênero-gato que utiliza o APF ê/meow/e, a frase “Júpiter está no quarto, elu está muito cansade’’ ficaria da seguinte forma: “Júpiter está no quarto, meow está muito cansade.’’

Quanto à pronúncia dos xenopronomes, não fique com receio de perguntar a alguém como se pronuncia! Isso ajudará você a saber a forma correta de se referir a uma pessoa xênica, e tenho certeza que ela ficará mais do que feliz em te ajudar a pronunciar corretamente.

Lembrando que a pronúncia de um mesmo xenopronome não é algo fixo, podendo variar a depender da pessoa.


Dúvidas

importante pontuar que a neolinguagem é algo novo, e é comum levar algum tempo para pegar o jeito. Treine aos poucos, adapte a sua linguagem diária e em pouco tempo sua linguagem será inclusiva.

Dito isto, espero que o encarte tenha tirado suas principais dúvidas e auxiliado da melhor maneira possível o processo de aprendizagem da linguagem neutra.

Qualquer dúvida ou sugestão pode ser dirigida ao perfis da lgbtqspacey ou através do formulário de contato.

Obrigade!