Intersexo

“Intersexo” é o termo correto a ser usado para designar alguem que não se encaixa na definição típica de sexo feminino ou masculino.

Há uma variedade de condições em que uma pessoa nasce com uma variação corporal (genitálias, gônadas, cromossomos e resposta hormonal) a qual difere do que é atribuído às duas categorias binárias de sexo (masculino e feminino).

Uma pessoa intersexo pode, por exemplo, nascer com genitais que se situam entre o feminino e o masculino. Nesse sentido, uma moça pode nascer com um clitóris visivelmente grande ou com ausência de abertura vaginal e um rapaz pode nascer com um pénis anormalmente pequeno ou com um escroto dividido e com formato mais semelhante a lábios vaginais. Além disso, ainda podem ocorrer casos em que uma pessoa nasce com uma variedade genética em que algumas das suas células têm cromossomas XX e outras cromossomas XY.

É muito importante lembrar que, ao falar de intersexo, não existe apenas uma manifestação, e por isso não se trata de um terceiro sexo. A anatomia intersexo muitas vezes, não se revela no nascimento: algumas pessoas intersexo nascem com genitais atípicos, outras nascem com genitais típicos. Umas possuem cromossomas XX, e possuem naturalmente um pênis e escroto, algumas possuem cromossomos XY e possuem naturalmente uma vulva e vagina. Existem varias maneiras de ser intersexo.

Dentre elas, algumas são aparentes ao nascer, enquanto outras não são aparentes até a puberdade, e podem não serem fisicamente aparentes. Um exemplo disso é quando a pessoa se depara com a infertilidade, e, por vezes, somente é descoberto quando a pessoa morre e é autopsiada, sendo possível viver com a anatomia sem que ninguém perceba (incluindo elas próprias).

Bandeira intersexo. Fundo amarelo vibrante com um círculo roxo grosso no centro.
Bandeira Intersexo

Diante disso, fica a pergunta: então quais variações da anatomia sexual contam como categoria intersexo?

Na prática, pessoas diferentes têm respostas diferentes a esta questão. O que não é algo exatamente surpreendente, uma vez que o intersexo não é uma categoria discreta ou natural.

Acontece que sexo é algo socialmente construído. Sendo assim, intersexo também enquadra-se como uma categoria socialmente construída para considerar a existência do resultado de variações biológicas reais do sexo.

Uma das formas mais simples de se explicar é ligar o espectro sexual ao espectro de cores. Não há dúvidas que amarelo seja diferente de verde ou de azul. Mas a decisão de distinguir entre o vermelho e o vermelho alaranjado, por exemplo, só é algo que acontece quando precisamos de uma cor específica, por uma necessidade social que nos leva a fazer essas distinções.

A natureza nos oferece uma anatomia sexual com extrema variabilidade. Seios, pênis, clitóris, escrotos, lábios, gónadas; todos de variados tamanhos, formas e morfologia.
Na sociedade, a diferença tende a ser simplificada entre homem e mulher, e intersexo, de forma a facilitar a comunicação. Entretanto, a natureza não decide onde a categoria “masculina” ou ‘’feminina’’ começa e onde termina a “intersexo”. Nós é que decidimos. Os seres humanos (diga-se de passagem: médiques) decidem o quão incomum uma combinação de características tem de ser para contar como intersexo. São elus quem decidem se uma pessoa com cromossomas XXY ou cromossomas XY e insensibilidade aos hormônios andrógenos se enquadra, ou não, como intersexo.

Apesar de normalmente se entender a intersexualidade como algo muito raro, isso não é verdade. No mundo existem tantas pessoas com traços intersexos quanto existem pessoas ruivas: 1,7% da população. Porém tais dados são subestimados, já que muitos fatores podem dificultar o reconhecimento da intersexualidade, podendo ela não ser percebida. Além disso, muitas pessoas intersexo passam por cirurgias ao nascer, e podem não ser notificadas pela família (muitas vezes por orientação inadequada de profissionais da saúde), ou até mesmo  é possível que a própria família não seja notificada.

Situações como essas são alvos de críticas de ativistas intersexo, os quais se opõem à cirurgia não urgente de redesignação sexual em crianças. Eles dizem que uma pessoa pode tomar a decisão certa sobre isso apenas na idade adulta, dependendo também da identidade de gênero da pessoa.

Eles acreditam que os pais e ês médiques não devem decidir por eles sobre se são um homem ou uma mulher, sendo necessário distinguir a cirurgia quando a vida da criança está ameaçada pela chamada cirurgia estética.

É justamente a cirurgia estética que é realizada na maioria das vezes em bebês: sua genitália externa é mutilada para ter uma aparência típica. Uma criança do sexo feminino, pode ter uma genitalia com características “masculinas”, como hipertrofia clitoriana. Para dar-lhe uma aparência feminina típica, o clitóris é dissecado. Suas identidades intersexo lhes são negadas pela cisgeneridade binarista que precisa que o gênero “combine” com os genitais que tem.

Às vezes, a mesma variação intersexual interrompe a produção de urina — então a cirurgia se torna absolutamente justificável.

Existem pessoas que, além de não ter a chance de decidirem se querem ou não alterar a sua genitália, antigamente eram obrigadas a passarem meses de vida sem certidão de nascimento, já que não era possível fazer o registro sem definição de sexo. Hoje em dia, no Brasil, o registro pode não ter sexo caso o bebê seja intersexo, mas, ainda assim, a justiça exige uma correção posterior. Dessa maneira, entre os direitos a serem conquistados por pessoas intersexo, um dos principais é que a legislação permita que a pessoa possa ter em seus documentos a categoria intersexo.

Por fim, é fundamental também dizer que intersexo não se refere a gênero, e sim a sexo. Mesmo assim, pessoas intersexo costumam ter sido atribuídas ao nascer ao gênero masculino, ou ao feminino. Porém elas ainda podem ser cis ou trans, e ter qualquer gênero (dentro do binário ou não).

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