Crianças Trans

Crianças trans existem. Elas podem ser jovens, mas isso não as impede de entender a existência de gênero, e muito menos de não se entenderem com o que lhes foi designado. Entre 6 e 9 meses, as crianças se tornam capazes de diferenciar quanto a gênero, vozes e faces. Isso se torna mais nítido aos 2 anos, quando elas começam a ter a capacidades de se identificar como meninos ou meninas e apresentarem brincadeiras relacionadas ao gênero.

Entre 2 e 3 anos de idade, se inicia a identidade de gênero (enquanto experiência social e psíquica individual, porém a sociedade já designou uma identidade antes da criança nascer). A maioria das pessoas nessa idade se identifica com o gênero que lhes foi designado ao nascer, mas nem sempre é assim e alguns indivíduos se sentem desconfortáveis em relação a isso. Esse desconforto é conhecido como Disforia de Gênero, e nos últimos anos tem sido observado um aumento na quantidade de crianças e adolescentes buscando por ajuda médica devido a ele. 

Apesar de muitos conservadores acreditarem em um fantasma da “ideologia de gênero”, não existe uma conspiração para transformar crianças em trans, sendo a ideologia de gênero uma estratégia para usar a imagem da criança sob ameaça, para atrair a atenção da mídia e criar um movimento contra o avanço dos direitos sexuais e reprodutivos.

O que existe é uma maior exposição à informação na internet, e representatividade na mídia, sendo assim, ser trans se tornou também uma possibilidade, e não apenas uma criatura pecadora (referente à forma com que pessoas trans eram retratadas quando as formas de acesso à informação eram mais restritas).

Além da ideia errada do “sexo biológico” atribuído ao nascimento, existe outra face da identidade de gênero, relacionada aos processos de aprendizagem e sociabilização, que se estabelecem entre dois e quatro anos de idade. Se trata de uma construção complexa e única para cada pessoa, que envolve fatores biológicos, psicológicos e de socialização, englobando sentimentos sobre o corpo, sobre os papéis sociais relacionados, identificação de gênero e sexualidade, abrindo espaço para identidades alternativas que não se restringem ao estereótipo binário.

As crianças podem expressar a disforia de gênero preferindo roupas, brinquedos, jogos e brincadeiras culturalmente ligadas a outro gênero. Quando crianças apresentam discordância entre o gênero designado ao nascer e a identidade de gênero, podem ser alvos de bullying, rejeição, violência física ou verbal e exclusão de ambientes sociais, o que repercute de forma negativa na sua qualidade de vida.

O estigma social relacionado à disforia de gênero é um dos fatores que gera discriminação a essa minoria de pessoas, com sofrimento significativo. Nos(as) adolescentes, a inconformidade é evidenciada com as mudanças corporais da puberdade e pode desencadear problemas psicossociais. O grau dessa inconformidade pode ser de leve a intensa, associada ou não a distúrbios de internalização como ansiedade, depressão e isolamento social.

Um pediatra qualificado pode identificar se o indivíduo apresenta interesse em realizar intervenções clínicas ou cirúrgicas para mudança de gênero no futuro, avaliar o suporte social (sobretudo para o paciente e a família), assim como os aspectos relacionados à saúde mental.

A terapia hormonal e a cirurgia podem vir a ser necessárias em alguns casos, mas só devem ser orientadas em centros de referência após um período prolongado de acompanhamento psicológico/psiquiátrico. No início da puberdade (por volta dos 10 anos) só é permitido “supressores de puberdade”, para que crianças possam ter mais tempo para decidir se realmente querem se desenvolver características sexuais de um gênero, ou outro. O retardamento da puberdade é importante, pois passar pela puberdade no “gênero errado” pode resultar em depressão profunda, ou até suicídio. 

A idade para o início do tratamento hormonal, na qual o adolescente possa tomar hormônios para que possam desenvolver características de outro gênero, varia de acordo com especialistas, mas a grande maioria concorda que isso só pode acontecer por volta dos 16 anos.

Uma família que entenda e que aceita crianças trans, é alvo de críticas e rejeição frequentemente, necessitando também da atenção do pediatra, que deve participar junto à uma equipe multidisciplinar do acompanhamento destas crianças e adolescentes com postura atenta e cuidadosa para minimizar os riscos para cada sujeito de acordo com o seu desenvolvimento e entendimento da própria identidade.

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