Lesbianidade e Gênero

Frequentemente associada ao amor entre mulheres, a lesbianidade fala sobre bem mais do que isso. Nem toda pessoa lésbica é uma mulher, seja a questão a não-binariedade, seja a sensação de não-pertencimento (ou de expulsão) de certo gênero.

Em 1970, o manifesto Radicalesbian, “The Woman-Identified Woman (WIW)” (Radicalesbians [1970]), politizou especificamente a identidade lésbica. Foi apresentado o argumento de que, para transcender o heterossexismo, as mulheres deveriam rejeitar a feminilidade e as formas como ela era usada para escravizá-las, ligando sua existência aos homens.

A autora Monique Wittig argumenta que “lésbicas não são mulheres”, e critica o “heteropatriarcado”, um regime político dedicado à opressão das mulheres por meio do patriarcado e do heterossexismo. 

Enquanto este primeiro é entendido como um regime sociopolítico dominado pelos homens, que oprime as mulheres e empodera os homens cisheterossexuais, o heterossexismo é um sistema que define as relações mulher / homem como “naturais” e, por esta razão, superiores a quaisquer outras formas de relacionamento íntimo, especificamente relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo/gênero.

O patriarcado, produtor do gênero, determina dois gêneros a serem aceitos pela sociedade, e os determina opostos, contactados pelo que chamamos de heterossexualidade. Ou seja, “homem”, e “mulher”.

O heterossexismo pode, portanto, ser concebido como um componente do patriarcado: é apenas naturalizando a heterossexualidade e seus estilos de vida que a ordem patriarcal pode garantir o acesso aos corpos das mulheres e, portanto, aos produtos de seus corpos. 

Designadas “mulher” ao nascer e sendo incapazes de realizar esta conexão com o seu teórico oposto, lésbicas AFAB rompem com a definição imposta pelo patriarcado, as colocando fora do binário homem-mulher e, por consequência, as definindo como não-mulheres.

Se lésbicas não são mulheres, isto as torna automaticamente trans? 

Na prática, há outros gêneros que são produzidos pelo patriarcado (aliado sempre ao capitalismo) de forma a inserir aquelas pessoas que fugiram do binário homem-mulher. Sophia Burns, no texto “Designado Bicha”, argumenta que, ao longo de sua juventude, seus comportamentos contra-patriarcais a expulsaram do gênero “homem”, designado a ela ao nascer, para uma nova designação de gênero: “bicha”.

Podemos considerar este processo análogo ao passado por pessoas designadas “mulher” ao nascimento que são eventualmente categorizadas como lésbicas (ou, em fato, “sapatão”). Percebemos, então, que os gêneros “lésbica” e “bicha” são gêneros designados (ou seja, impostos independente da vontade do indivíduo), e logo, assim como “homem” e “mulher”, sujeitos a serem rompidos.

Chamamos de cisgênero, ou de “cis”, as pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído quando ao nascimento. Denominamos as pessoas não-cisgênero, as que não se identificam com o gênero que lhes foi determinado, transgênero ou trans.

Porém, quando tentamos aplicar esta definição para lésbicas, se determinamos que estas não se identificam (ou mais precisamente, não são identificadas) com o gênero que lhes foi atribuído ao nascer (mulher), elas evidentemente não são cis. Porém, se considerarmos que lésbica é um gênero que é determinado, elas, também evidentemente, não são trans.

Nossa compreensão de gênero, sexualidade e suas hierarquias é formada pelos termos que usamos. E os termos que usamos são reflexos de uma história de patologização de alguns comportamentos humanos e normatização de outros.

Quando alguém se afirma lésbica, se compreende que eu não estou afirmando atração por TODAS as mulheres. os termos “lésbica” e “homossexual” originalmente incluíam pessoas que hoje chamamos “bissexual” ou mesmo “pansexual”, mostrando a volatilidade da nossa compreensão.

É importante, porém, reconhecer que os termos reivindicados pelos movimentos LGBTI+ ao redor do mundo são, mais do que de fato “classificações do mundo natural”, termos políticos, que unem indivíduos em uma bandeira para buscar reconhecimento legal e proteções de seus direitos como humanos.

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