Apagamento Bissexual

Na nossa sociedade, há diversas formas de sumir com determinadas características, comportamentos e até mesmo modos de ser. Pequenas violências simbólicas, que aos poucos tomam lugar em nossa mente.

“Você não pode ser assim. Você não pode gostar disso. Você não pode existir.” O apagamento bissexual é quase uma constante na vida de qualquer pessoa que se identifique com esse rótulo. O monossexismo, que consiste na imposição de monossexualidades — sempre de modo cis, hetero, allo e monogâmico —, influencia na marginalização multi, o que consequentemente leva à busca por enquadrar a bissexualidade e demais orientações no molde mono.

Apesar de, socialmente falando, o ideal ser que a pessoa escolha a heterossexualidade, o pensamento é tão enraizado que flui, também, dentro da comunidade LGBTQ+, que lê a atração por mais de um espectro de gênero como confusão.

Assim, o apagamento da bissexualidade pode ocorrer em qualquer contexto, sendo os relacionamentos uma das principais ferramentas utilizadas.

A ideia de que o seu relacionamento constrói a sua orientação, e não o contrário,  vem do costume na utilização de gay, hétero e lésbica enquanto adjetivos, rotulando um casal como tal.

É imposto que quando uma pessoa bissexual está num relacionamento com alguém do mesmo gênero, ela é automaticamente homossexual, e quando está com alguém de outros gêneros, ela é heterossexual, e esse conceito corresponde a um pensamento chave para o apagamento da existência de pessoas bi — e multis de modo geral.

A orientação de alguém não deixa de existir em função de um relacionamento. Estar em um relacionamento sáfico, aquileano, duárico ou diamórico não muda quem ela é, independente do que outras pessoas digam.

O apagamento bissexual, no entanto, vai para além dos relacionamentos. É sobre aquela pessoa que se compreende bi, mas é rotulada como mono por nunca ter se relacionado com alguém de certo gênero. Sobre tratar mulheres bis como hetero e homens bis como gays. Sobre achar que é uma fase, uma confusão, um fetiche.

É sobre a sociedade querer ditar regras em algo que ela não pode controlar. Corpos bissexuais não foram desenhados a lápis, então a sociedade pode guardar a sua borracha. Porque a bissexualidade sempre esteve aqui, e ninguém vai conseguir mudar isso.


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