Fetichização da Bissexualidade

Em que ponto um fetiche deixa de atuar em um âmbito sexual e passa a atuar na vida social? Já foi mencionado em textos anteriores como a fetichização de sexualidades é um reflexo da dominância da heterossexualidade.

O foco deste texto é a bissexualidade, e seria uma meia-verdade se não mencionar que a fetichização bi é a mesma fetichização sofrida por todas as pessoas dentro da multissexualidade.

Sobre a bissexualidade, práticas sexuais e romântica entre pessoas de diferentes gêneros são datadas desde a Grécia antiga — por não existir a distinção de identidades não há necessidade de classificar como bi/pan/omni. O uso do termo ou o surgimento é datado de 1948, por Kinsey, que, apesar de tudo, não gostava do termo.

A fetichização de pessoas bissexuais se apresenta em diversos meios midiáticos, contribuindo para uma estigmatização dessa sexualidade, além de dificultar o processo de descobrimento e, posteriormente, de aceitação das pessoas monodissidentes.

A Heteronorma e a Comunidade LGBTQ+

Falando sobre bissexualidade  — ou multissexualidades  —, o maior vilão seria o monossexismo. Entretanto, a heteronorma afeta a tode e qualquer LGBT+ em um certo ponto, atuando de forma mais agressiva e abusiva para usar da bissexualidade como um paralelo à promiscuidade, assim levando a orientação como um consentimento para abuso e investidas diretas, tendo estes conceitos surgidos como um reflexo dos estereótipos.

Indo para comunidade LGBTQ+, temos falas que acabam por apagar a bissexualidade, colocando ela como uma indecisão ou até mesmo uma transição de hetero para homo  — ou o contrário —. 

Tratar a bissexualidade como uma orientação incompleta, sexualizar pessoas bissexuais resumindo elas a objetos sexuais, ou até mesmo amenizar a importância da luta bissexual por conta de uma “Passabilidade Hétero” são exemplos de como a heteronorma atua, tanto dentro como fora da comunidade LGBTQ+.

A Representação na mídia

Quantos personagens bissexuais temos no meio midiático? Quantos desses são uma boa representação bissexual? Vivemos em um período tecnológico, com internet, livros digitais, filmes e séries cada vez mais acessíveis. Em um período como esse a representação de um conceito nunca teve tanto peso. A verdade é que representação é importante, e quando se trata de pessoas LGBTQ+ é mais do que importante, é necessário. Através dessa representação, estereótipos são derrubados e pessoas LGBTQ+ passam a ser humanizadas. Relacionar e reconhecer minorias é uma forma de combater preconceitos.

Mas o que acontece quando a representação não é boa? Veja personagens bissexuais. Quantos delus não foram pintades como infiéis, indecises, como apelo sexual. Em Game of Thrones, o personagem Oberyn Martell tem a sua bissexualidade resumida à libertinagem. Em Gossip Girls, o personagem Chuck Bass tem a sua bissexualidade questionada. A personagem Treze, de M.D. House, é hiperssexualizada. E estes são apenas alguns exemplos.

Uma péssima representação acaba por reforçar estigmas e dificultar a aceitação tanto das pessoas bissexuais como a de pessoas não-bissexuais. A fetichização de personagens bi distorce e destrói a imagem do que é ser bissexual. Colocar personagens femininas como indecisas ou como apelo sexual reforça tanto o estereótipo de infidelidade bi quanto o de libertinagem bi. Além disso, quando vamos observar personagens masculinos que são bi? E negros? TranS? Com deficiência? Quando vamos poder ter contato com representatividades reais?

Poderia fazer uma lista com tantas representações problemáticas, que servem apenas para reforçar estereótipos e perpetuar estigmas, mas o objetivo aqui é tentar entender qual a dificuldade de representar um personagem bissexual. 

A maior questão dos estereótipos bi : surgem por conta da má representação na mídia, ou a má representação na mídia é por conta da existência dos estereótipos bi?

Misoginia e sexualização

Pode parecer confuso para muita gente, mas pasme:  nem todes bissexuais fazem sexo a três e que você não precisa ser bi — ou multi — para fazer isso.

Misoginia. Essa palavra é muito relacionada a mulheres em um conceito binário. Ódio e aversão às mulheres? Bem, está correto em partes, pois mulher não deixa de ser um papel social, que carrega conceitos ideais pré-definidos que determinarão o que é ‘mulher’. Ainda assim, odiar gays afeminados, por exemplo, não deixa de ser um ódio oriundo dessa misoginia, tal qual aversão a transfems e a marginalização e objetificação da feminilidade, Logo, a misoginia é aversão a qualquer traço de feminilidade. 

Na bissexualidade, podemos observar de duas perspectivas: pessoas do gênero feminino que são colocadas em uma posição de objeto sexual, uma alternativa para fantasias sexuais criadas e desejadas por homens cis hétero — em texto anteriores falamos um sobre como a sexualização é uma forma da sociedade heteronormativa desvalorizar e desumanizar pessoas que fogem dessa norma.

Agora, a misoginia afeta pessoas do gênero masculino. Ela surge a partir do machismo estrutural, que trata a masculinidade como um padrão ideal, e justamente por isso as pessoas do gênero masculino — e até mesmo feminino — são pressionadas a alcançar essa masculinidade ideal, e qualquer ume que não alcança ou que não atende a esse ideal é reprimide de forma violenta, sujeite a agressão, a marginalização e até mesmo a ameaças. 

De fato, pessoas do gênero feminino, além de serem reprimidas, são pressionadas a buscar essa masculinidade. Tratando-se da bissexualidade masculina, temos o apagamento dela e a desvalorização da mesma tanto por parte da sociedade quanto por parte da comunidade LGBTQ+.

Portanto, a fetichização de pessoas bissexuais surge de estereótipos, de normas impostas socialmente, que buscam inserir as pessoas em conceitos monossexistas, trazendo à tona uma dicotomia de é isso ou aquilo. A bissexualidade, assim como as demais multissexualidades, é um passo para a libertação humana de definições, de comportamentos, de conceitos colocados como ideais. O ser humano tem um coração grande o suficiente para amar todas as pessoas, de várias formas. 

A comunidade LGBTQ+ ainda está muito longe de ser uma comunidade unificada e totalmente inclusiva, por isso mais do que nunca o suporte e apoio a todas as identidades é importante. Tenham orgulho de ser Bi. Tenham orgulho de Amar.

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