Butch e Femme

Existem diversas formas de definir Butch e Femme. Por exemplo, é possível sumarizar os estereótipos que esses termos carregam, ou talvez ir por uma definição biológica que muitas vezes exclui pessoas intersexos. Uma outra opção é utilizar-se do binarismo de gênero.

Talvez a melhor forma de se definir Butch e Femme é não definindo os termos, visto que estes carregam histórias, significados, sentimentos. Uma luta. E, assim como os demais termos LGBTQIAP+, não existe uma forma específica de se conceituar. 

Para entender o que é Butch e Femme, você precisar saber o que é lesbianidade, sexo, identidade de gênero e expressão de gênero. Você precisa compreender cada termo e suas nuances, para que assim você possa definir o que é Butch e Femme.

Começando por sexo, este é um fator biológico erroneamente definido apenas como masculino e feminino. A determinação do sexo depende dos seguintes atributos: Cromossomos sexuais, hormônios, estrutura reprodutiva e genitália. Durante muito tempo, sexo foi restringido a masculino e feminino, entretanto a existência de pessoas que apresentam condições biológicas adversas, pessoas intersexos, tornam a existência do sexo binário inviável.

Em relação à identidade de gênero, temos uma questão social, a existência de papéis sociais tal qual homem e mulher. Papéis esses criados e reforçados por uma sociedade patriarcalista, que força o uso desse papéis através da associação do gênero com sexo biológico, criando assim expectativas do que cada papel deve exercer na sociedade.

A questão aqui parte da premissa de que o gênero é uma construção social. Você é livre para negar o gênero que foi designado a você, além de ser livre para autodeclarar o seu gênero, podendo assim exercer o papel social que você desejar.

Em relação ao sexo biológico, que trata de questões biológicas, temos que a identidade de gênero trata de uma questão psicológica, de como o individuo se vê socialmente, como ele se sente e como ele se define em um ambito social.

Sobre expressão de gênero, acompanhado do sexo biológico determinado no nascimento as pessoas são forçadas a assumir uma identidade de gênero. Com essa identidade, é criada uma expectativa social de como essa pessoa vai se comportar, vestir, falar e pensar. 

Tal expectativa é divida em características ditas masculinas e femininas, como se é esperado que mulheres usem vestido, tenha cabelo longo e cuidem das tarefas domésticas, enquanto é esperado que o homem expresse uma atitude mais rígida (em alguns casos insensível), que tenha cabelo curto e que trabalhe para sustentar a família.

Assim como temos a quebra desses padrões em relação ao sexo biológico e à identidade de gênero criados pela sociedade, temos também a quebra dessas expectativas. A expressão de gênero é justamente a forma que uma pessoa se apresenta socialmente. Ela não precisa ser a mesma que a identidade de gênero. 

Os três conceitos apresentados até agora se relacionam, e ao mesmo tempo são independentes. Dito isso, a divergência entre a expressão de gênero e a identidade de gênero é em relação à externalização delas. Enquanto a identidade de gênero é um conceito interno, a expressão de gênero é um conceito externo. Em resumo, a identidade de gênero é como você se vê, enquanto a expressão de gênero é como as outras pessoas irão ver você.

Por fim, é impossível falar sobre lésbicas sem mencionar a lesbianidade, o ato de se rebelar contra o sistema patriarcal. A lesbianidade surge como forma de resistência contra um sistema patriarcal que favorece o relacionamento cisheterossexual, colocando o homem cis em uma posição de dominação e a mulher cis em uma posição de submissão, contra a sexualização dos relacionamentos lésbicos/sáficos por parte da industria pornográfica e contra a descriminação e a homofobia que surge dessa resistência. A lesbianidade é o ato de se rebelar contra a heteronormatividade.

Agora que você está conceituade, ficará mais simples definir o que é butch e femme e  entender como esses termos transitam por todos os conceitos citados a cima. 

Contexto histórico

Não se sabe quando ou como surgiram os termos. A história da comunidade LGBTQ+ é criada através de fragmentos, relatos e fotos borradas. A sociedade sempre marginalizou, oprimiu, apagou e exterminou LGBT+s e suas histórias. 

Existem registros fotográficos de lésbicas “masculinizadas” em vários períodos históricos. Veja, em 1940 lésbicas butch eram forçadas a se vestirem de forma mais feminina para que pudessem manter o emprego. Apenas a partir de 1950 que temos registros de uma nova geração de lésbicas butch, que recusaram a viver uma vida dupla e passaram a se vestir de forma “masculinizada”. Com isso, lésbicas butchs vieram a enfrentar o desemprego e a serem restringidas a um número limitado de trabalhos, como trabalhos em fábricas, mecânica e motoristas de caminhão (importante notar a criação dos estereótipos).

Trabalhando nesses ambientes, estavam sujeitas a ataques violentos que colaboraram para o estereótipo de que estas possuem uma postura mais agressiva. 

Vale lembrar que lésbicas femmes também assumiam uma postura agressiva diante da discriminação, entretanto, as butch que ficam com o papel de violentas e de assegurar os espaços dominados por lésbicas (Os chamados “gay bars”).

No decorrer da história, os estereótipos carregados pelos termos butch e femme foram se apresentando cada vez mais como uma replicação do sistema binário de gênero.

Identidade x Binarismo de Gênero

Tradicionalmente, o gênero é reflexo de uma construção social que se limita a duas identidades. Essa construção se baseia em rotular atributos, dividindo-os em masculinos e femininos, e consequentemente a reflexão dela ocorre quando os indivíduos passam a utilizar desses atributos para identificar e determinar o gênero dos demais. Como já mencionado, o indivíduo é livre para negar esse gênero determinado, ao mesmo tempo que cabe a ele determinar o próprio gênero.

Quando olhamos os termos, temos uma impressão desse binarismo de gênero, butch sendo um reflexo dos aspectos masculino de gênero e femme dos aspectos feminino. Entretando, vale ressaltar que, mesmo apresentando tal semelhança, esses termos não são normalizados ou visto como naturais, cada um carregando uma série de discriminação e violência por conta da ameaça à “masculinidade” do sistema patriarcal. 

Em uma sociedade na qual o homem hétero cis branco encontra-se como soberano no papel de domnío, lésbicas são empurradas para uma posição de fetichização, principalmente as femmes, que são as mais utilizadas pela indústria pornográfica.

Enquanto temos estas no papel de fetichizadas, temos as butchs no papel de repudiadas por não reproduzirem “feminilidade” o suficiente. Vale ressaltar que lésbicas femmes estão mais sujeitas a assédio sexual, diante dessa fetichização temos lésbicas “masculinizando-se” para escapar do assédio e da fetichização.

Um outro ponto a se ressaltar é a questão de “passabilidade”. Por terem uma aparência mais “feminina”, femmes são muitas vezes classificada como heterossexuais, criando assim uma falsa “passabilidade” em relação à discriminação e homofobia. Ao mesmo tempo, lésbicas butchs são mais sujeitas a esse preconceito, inclusive afetando mulheres hetero que possuem uma aparência mais “masculina”, em termos de estereótipos e padrões sociais. Vale lembrar que, por conta dessa existência dicotômica de gênero, lésbicas e mulheres heterossexuais com uma aparência andrógina podem ser (e são) classificadas como butch.

É notável como essas classificação femme e butch, em sua maioria das vezes, é forçada em lésbicas. Isto se dá através da pressão colocada sobre ela, presente tanto dentro quanto fora da comunidade LGBT+, levando em consideração que essa classificação se baseia em estereótipos de uma binarismo de gênero banhado em discriminação e preconceito.

Estereótipos de Butch e Femme

Comumente, a palavra estereótipo é utilizada como uma forma de eufemismo na comunidade LGBT+. São características atribuídas a um grupo por uma outra  comunidade ou pelos indivíduos desta mesma.

Quando se trata da comunidade LGBT+, os estereótipos em sua maioria são atribuídos pela sociedade, por pessoas de fora da comunidade, e essas características carregam conotações ruins, como críticas disfarçadas. No entanto, é importante lembrar que estereótipos não são uma regra, e ninguém tem a obrigação de reproduzir esses estereótipos. Ao mesmo tempo que cabe ao grupo afetado aceitar o que lhes foi imposto e ressignificar certos termos, ou não.

Se você esperava uma lista organizada ou uma tabela listando todas as características de uma butch ou uma femme, provavelmente se decepcionou. Não tem como sumarizar uma pessoa, é uma tarefa impossível. 

Os estereótipos de Butch e Femme é algo a se refletir, não a se categorizar. Desde sempre a sociedade busca separar o que é masculino do que é feminino. Busca classificar tudo que existe, desde a cor de suas meias ao seu emprego. Vivemos em uma dicotomia binarista, que serve apenas para reforçar conceitos ultrapassados de uma sociedade que nunca existiu.

Butch e Femme é uma reprodução dessa dicotomia e, por ter surgido nesse conceito, lésbicas foram forçadas a assumir essas classificações e reproduzir esses estereótipos.

Por conta disso, é importante pensar o quão frágil e absoluta é essa divisão entre masculino e feminino e, ainda, como um conceito tão frágil e simples consegue dominar tantas pessoas? O que são os estereótipos carregados por butch e femme, se não a reprodução do já conhecido masculino e feminino?

Suporte Familiar e pressão da sociedade

Historicamente, a família é um dos melhores ambientes para educação, é na família que são apresentados os papéis de gênero. É onde se aprende a diferenciar atributos masculinos e femininos, as formas como os adultos tratam garotas e garotos, como as mulheres adultas se comportam e como os homens adultos se comportam. A família insere você na sociedade, na dicotomia de gênero.

Agora inseride na sociedade, é esperado que você reproduza o que aprendeu com a sua família. Você será pressionade a imitar seus parentes, e essa chamada pressão social aumenta de forma proporcional à sua idade.

Quanto mais você cresce, mais expectativa é criada. Você é direcionade a um caminho, a exercer um papel que você não escolheu, para que posteriormente suas crianças possam aprender com você e assim dar continuidade ao ciclo, que mais parece um show de fantoches que se vêem presos a papéis desde o nascimento.

Mas se a família é responsável por continuar o ciclo, como ela pode ser a solução? Partindo da ideia de que a família é a responsável por introduzir a criança a essa norma de gênero, a família também detém o poder de quebrar esse ciclo. 

Lésbicas butch que não tiveram suporte familiar acabam criando um repúdio por atributos feminino, enquanto femme acabam por ter sua sexualidade negada, tendo que passar pela dificuldade de se assumir sempre que conhecem uma pessoa nova.

Como dito anteriormente, a comunidade LGBT+ acaba por exercer pressão em lésbicas por conta desses termos. Butch são descredibilizadas caso demonstrem alguma feminilidade ou não demonstrem masculinidade o suficiente, enquanto femmes têm a sua sexualidade negada.

O papel familiar nesse processo é o de suporte à criança, permitindo que ela cresça de uma forma confortável, livre das expectativas socialmente impostas.

Conclusão

Acreditando que, neste ponto, você já é capaz de conceituar Butch e Feme, é importante lembrar que, com o crescimento da diversidade e com a introdução da teoria queer, a dicotomia de gênero perdeu bastante força e influência sobre as pessoas. Termos como butch e femme são poucos usados, porém é inegável o papel deles na história da comunidade lésbica e LGBT+ de modo geral.

A cultura queer acabou por introduzir novos termos, classificações alternativas, como Soft stud, Hard butch, Gym queen ou tomboy femme. A chegada da internet contribuiu bastante para a desconstrução dos estereótipos e conotações negativas que os termos carregavam, através da união da comunidade butch-femme e da comunidade lésbica como um todo.

Vale refletir que, hoje em dia, as pessoas que utilizam o termo butch e femme o usam como forma de descrever a sua expressão de gênero, assim como uma identidade de gênero em si, lembrando que a utilização desses termos é uma escolha pessoal, assim como a reprodução dos estereótipos. 

Finalizando, parabenizamos a todes ês Lésbicas por sua resistência, por seu orgulho e pela sua contribuição para com a comunidade LGBT+. Feliz Dia Nacional da Visibilidade Lésbica!!!

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