Como a Heteronorma Afeta Pessoas Multi

É contraditório que tanta gente enxergue a bissexualidade como apenas metade LGBTQ+ e, ainda assim, esse grupo passe por tanta coisa. Além de tudo o que vem de fora da comunidade, enfrentam diversos obstáculos vindos de dentro também.

Não que violência seja uma forma de medir pertencimento, mas fica um tanto complicado conciliar os dois discursos. É inegável que determinadas minorias vão sofrer determinadas violências, sejam elas explícitas ou não.

As violências explícitas direcionadas à comunidade lgbtq+ são muito mais do que conhecidas. Xingamentos, agressões e todo o tipo de ódio descarado. No entanto, a bifobia — e demais lgbtfobias — fala sobre bem mais do que isso.

As microagressões tratam-se de violências sutis, indo desde o insulto mais disfarçado até aquele estereótipo supostamente inofensivo.

A heteronormatividade diz respeito àquela pressão do sistema sobre o indivíduo que diz como ele deve se comportar e relacionar, e é uma imposição moral sexual cristã. Ela é fruto do colonialismo e impõe que o indivíduo seja hetero, monossexual, monogâmico, cis e allo, seguindo sempre o mesmo padrão.

A agenda colonial traz a binarização que separa formas de existir como certas ou erradas. Ela serve para  manter o ideal burguês, machista e cristão, e, nessa lógica heteronormativa monoteísta, se você não seguir o padrão, você não será aceito por Deus.

A estratégia da heteronorma é forçar aquele determinado modelo através de, principalmente, exclusão, marginalização e perseguição àquilo que foge do mesmo. Em outras palavras, como é possível deduzir, o que foge da norma é considerado anormal.

Quando a tática da imposição não funciona na sexualidade em si, há a existência do plano B: As aparências. Nisso, entram frases como “tudo bem ser, mas não precisa mostrar, né?”. No caso da bissexualidade, o buraco é mais embaixo. Afinal, “se você pode escolher, vire hétero”.

Essa suposta “passabilidade hétero” resulta no apagamento multi de duas formas: a falsa sensação de escolha, onde “escolher errado” leva à deserdação social, e a dualidade da leitura, onde pessoas multi — bissexuais, panssexuais, omnissexuais, entre outros rótulos — são lidas enquanto homo ou hetero de acordo com os seus relacionamentos.

Apesar de tudo, as multissexualidades não condizem com o roteiro a ser seguido, e nunca irão. A garantia da segurança que a passabilidade heterossexual traz  — tal como segurança física — não exclui a opressão que a heteronorma faz, e as sequelas que deixa.

Ainda que este tipo de opressão não venha acompanhado de violência física, gera angústia, depressão e ansiedade. Não poder viver a sua verdade é, de fato, uma prisão e, com tudo isso, as taxas de suicídio aumentam.

E é preciso entender que o apagamento bissexual ocorre porque a heteronormatividade é vista por uma lente monossexual. Essa lente por muitas vezes trata a “passabilidade hétero” bissexual como suposto privilégio, ao invés de como um apagamento.

Claro, a bissexualidade traz um horizonte para além do que a sociedade está acostumada. A atração por todos os espectros de gênero até hoje traz certa confusão, ainda que não faça sentido havê-la. 

É como se o indivíduo não apenas pudesse como fosse obrigado a escolher entre ser gay/lésbica — ainda que não seja ideal, socialmente falando — ou hétero, e isto também é uma forma de menosprezo ao sofrimento bissexual.

Sendo assim, é preciso tomar cuidado com discursos na própria comunidade LGBT+ que deslegitimam ou diminuem outras identidades, reproduzindo a lógica da heteronorma que afirma haver identidades mais válidas que outras.

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